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Do útero histérico ao clitóris-diabo: a herança hipocrática da desigualdade de gênero na medicina

A escola "Hipócrates olhou para o útero e viu um monstro. Olhou para o clitóris e fingiu que não viu nada. Mas para o pênis, ele teve tempo, verba e interesse. É essa herança que o estudo de 2026 está escancarando: 20 vezes mais pesquisas sobre a glande masculina não é ciência – é preconceito estrutural com data de nascimento."


A maior novidade revelada pelo estudo de 2026 – a existência de cerca de 20 vezes mais pesquisas sobre a glande peniana do que sobre a glande clitoriana – não é um acaso estatístico. 

É a herança direta de uma visão de mundo inaugurada pela Escola de Hipócrates, que tratou o corpo feminino, sistema reprodutivo, homeostase e prazer (SRHP) como lugar de doença da saúde feminina. Essa visão preconceituosa, indigna e excepcional sobre o SRHP desestimulou estudo e fonte financeira acadêmica de pesquisa que não fosse de interesse do homem, como fertilidade, gravidez, parto e doença sexualmente transmissível. 

O clitóris foi vítima dessa visão preconceituosa, sendo mutilado ou retirado brutalmente para punir ou moldar o comportamento da mulher, pois sua remoção retira o prazer feminino ou criminaliza a sexualidade.

Entretanto, ele teimava em existir como um órgão cuja única função é o prazer feminino (e não a reprodução), contrariando a visão deles, que pensavam na mulher como mera genitora, cuja função é engravidar para manter a estrutura matriarcal, renovar e vigorar, essa lógica patriarcal o rebatizou como "teta do diabo", "estrutura hermafrodita" ou "parte vergonhosa", justificando desde o clitóris até a exclusão sistemática da anatomia feminina dos currículos médicos. 

Assim, enquanto o pênis era estudado com prioridade absoluta (porque serviria à reprodução e ao prazer masculino, considerado legítimo), o clitóris foi ignorado, satanizado ou tratado como irrelevante. 

O resultado está nos números de 2026: o homem sempre na vantagem, a mulher sempre na negligência. Não falta ciência. Falta vontade de desmontar um preconceito estrutural que já estava na base da medicina ocidental.

SANTOS, Renan. Clitóris, muito prazer! Brasil de Fato, 30 nov. 2023. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/com-ciencia/2023/11/30/clitoris-muito-prazer/. Acesso em: 1 jun. 2026.

UOL. A real responsável pelo mapeamento do clitóris. UOL Notícias, 29 de maio de 2026. Vídeo. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/videos/2026/05/29/a-real-responsavel-pelo-mapeamento-do-clitoris.htm. Acesso em: 1 jun. 2026.

LEE, Ju Young et al. Neuroanatomy of the clitoris. bioRxiv, 20 mar. 2026. Preprint. DOI: 10.64898/2026.03.18.712572. Disponível em: https://www.biorxiv.org/content/10.64898/2026.03.18.712572v1. Acesso em: 1 jun. 2026.


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