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A vagina ocidental: a origem do preconceito.



Hoje vamos falar sobre a origem de um velho conhecido da história ocidental: o preconceito vaginal, sim, ele é antigo, empoeirado e, infelizmente, ainda aparece por aí usando jaleco, gravata, toga ou ocupando grande cargo de SEO das empresas de comunicação digital.

Era uma vez, na Antiguidade ocidental, antes da Era Comum, um homem chamado Hipócrates, conhecido como o pai da medicina ocidental. A tradição médica ligada a ele sustentava uma ideia que hoje parece saída de um roteiro de terror anatômico: a teoria do útero errante.

Segundo essa teoria, as doenças femininas eram causadas pelo útero, que supostamente passeava pelo corpo da mulher como se estivesse perdido no shopping, subindo em direção à garganta, causando sufocamento, dores, alterações emocionais e outros sintomas. Para “resolver” o problema, eram indicados tratamentos como vaporizações vaginais, poções amargas, bálsamos, pessários de lã e outras técnicas que tentavam “atrair” o útero de volta ao seu devido lugar.

E, como se não bastasse, alguns escritos médicos mencionavam a chamada “massagem genital”, realizada por médicos ou parteiras. No fim das contas, a grande receita para o útero considerado “faminto” era a tríade clássica: casamento, relação sexual e gravidez. Ou seja: a mulher adoecia porque, segundo essa lógica, seu corpo precisava ser controlado, penetrado, engravidado e domesticado, tenha santa paciência, Hipócrates.

Leia o livro: GREGO-ROMANO QUE INVENTOU A DOENÇA FEMININA: O Sistema Próprio de Hidratação Vaginal: o rompimento com a escola de Hipócrates.[link do livro na Amazon]

Em resumo: a base dessa visão era a ideia de que a mulher era biologicamente defeituosa, se ela estava doente, a culpa era do útero, se estava triste, era o útero, se estava inquieta, era o útero. Se tossisse, provavelmente alguém também olharia torto para o útero, nasce aí uma das raízes da patologização do corpo feminino: a transformação do sistema reprodutivo, homeostático e de prazer da mulher — o SRHP — em suspeito permanente.

É nesse ponto que podemos localizar o nascimento de um preconceito antigo, profundo e persistente: o preconceito vaginal. Ele não surgiu apenas como ignorância médica, ele se estruturou como pensamento, como cultura e como prática. A vagina, o útero, a vulva, a sexualidade e o prazer feminino passaram a ser observados por uma lente de exceção, nojo, controle e desumanização.

A partir dessa base, espalhou-se uma ideia perigosa: o corpo feminino não era apenas diferente; era problemático, e, se era problemático, precisava ser corrigido, vigiado, escondido, silenciado ou até mutilado. Essa lógica sustentou práticas violentas, inclusive a retirada de órgãos como forma de punição ou controle do comportamento feminino. Esse é um tema amplo e merece outros momentos. Por enquanto, vamos nos concentrar na vagina e em como ela passou a ser tratada como algo repulsivo.

Repulsivo e nojento é aquilo que provoca rejeição imediata, asco, vergonha ou repugnância, e, quando uma parte do corpo é colocada nesse lugar simbólico, ela deixa de ser ensinada, pesquisada, nomeada e cuidada, ela passa a ser escondida.

Por isso, durante muito tempo, livros didáticos de biologia apresentaram imagens do sistema reprodutivo feminino sem representar adequadamente a vagina. É como se ela fosse importante para nascer, menstruar, sentir dor, parir e sustentar discursos médicos, mas não pudesse aparecer no desenho. A vagina era tratada como aquele  parente inconveniente, que todo mundo sabe que existe, mas ninguém coloca na foto da família.

Esse nojo não é inocente, ele opera como barreira, que impede que políticas públicas, estudos, financiamento, inovação e educação cheguem com seriedade até as mulheres. Um exemplo disso aparece quando até obras voltadas à saúde feminina enfrentam censura ou dificuldade de circulação por usarem palavras como “vagina” ou “vaginal”.

Nos Estados Unidos, um médico escreveu uma obra sobre saúde íntima feminina conhecida como uma espécie de “Bíblia da vagina”, a própria palavra “vagina” enfrentava censuras e restrições em espaços de divulgação.

Ou seja: pode vender produto para “a região íntima”, pode criar apelido, pode fazer piada, pode sexualizar, mas falar “vagina” com naturalidade, ciência e cuidado? Aí parece que aciona um alarme moral herdado diretamente da escola de Hipócrates.

E esse preconceito velho ainda quer fazer moradia em cabeças novas, em 2016, nos Estados Unidos, um grupo de estudantes foi penalizado porque usou explicitamente a palavra “vaginal” em um trabalho escolar. O professor pediu que retirassem o termo. Eles se recusaram e foram punidos.

Perceba a contradição: a escola, que deveria ensinar, muitas vezes reproduz o silêncio, a palavra existe, o órgão existe, a saúde existe, o problema existe, mas o vocabulário é tratado como indecente. É como se a anatomia feminina precisasse pedir licença para entrar na sala de aula.

A repulsa também alcança espaços que jamais deveriam compactuar com essa visão retrógrada, em 2022, durante uma discussão na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos sobre saúde feminina, deputadas que usaram o termo “vagina” foram repreendidas por supostamente violarem regras de decoro parlamentar (GROSS, 2022, p. 118).

Agora, convenhamos: discutir saúde feminina sem poder falar o nome do órgão envolvido é quase como discutir odontologia proibindo a palavra “dente”. É o tipo de absurdo que só sobrevive porque vem embalado em moralismo, tradição e uma falsa elegância institucional.

O curioso é que esse incômodo não aparece com a mesma força quando a palavra é substituída por apelidos, termos vulgares ou expressões de conotação sexual. Quando a intenção é erotizar, ridicularizar ou reduzir o corpo feminino ao desejo masculino, a criatividade linguística corre solta. Mas quando alguém usa “vagina” ou “vaginal” de forma formal, profissional, científica, educativa ou filosófica, aí pronto: alguns se comportam como se a civilização estivesse ruindo.

Vamos combinar: ninguém costuma usar “vagina” como palavra de sedução popular. Ninguém chega dizendo, com ar de galã: “que vagina deliciosa”. Não é assim que a linguagem comum funciona, quando a palavra aparece em contextos sérios, geralmente está ligada à saúde, à medicina, à educação, à ciência, à pesquisa, ao cuidado e, agora, também à filosofia do cuidado íntimo. Portanto, o problema não é a palavra, o problema é o preconceito contra aquilo que ela nomeia.

Esse preconceito é antigo, mas continua atual, ele nasce da preservação de uma memória greco-romana que, muitas vezes, coloca o protagonismo masculino acima da saúde e do bem-estar biofeminino. A história médico-científica mostra isso com clareza: o corpo feminino foi estudado, interpretado e tratado durante séculos a partir de uma lógica que não partia da experiência das mulheres, mas do olhar do homem ocidental sobre elas.

A filosofia do cuidado íntimo surge justamente para enfrentar esse preconceito pela raiz, ela propõe romper com a herança da escola de Hipócrates que ainda influencia muitas abordagens sobre a saúde feminina. Em vez de tratar o corpo da mulher como defeito, mistério, vergonha ou ameaça, a proposta é restaurar o conceito de saúde homeostática feminina.

Nesse caminho, também se propõe a criação e valorização do conceito de Sistema de Hidratação Vaginal, o SHV: um sistema próprio, responsável pela manutenção, lubrificação, equilíbrio e prazer da mulher em todas as fases da vida.

Falar de hidratação vaginal, envelhecimento íntimo, lubrificação, prazer, cuidado e saúde não é indecência, é conhecimento, é autonomia, é reparação histórica, é tirar a vagina do lugar do silêncio e colocá-la onde ela sempre deveria ter estado: no centro do cuidado, da pesquisa, da educação e da dignidade feminina.

Por isso, aproveito para te convidar a conhecer e financiar a primeira turma da formação de Terapeuta do SHV — Sistema de Hidratação Vaginal. Essa profissional será preparada para atuar no cuidado da saúde íntima e do skincare íntimo, resgatando uma dimensão do cuidado que as medicinas herbalistas do passado já reconheciam: a saúde feminina merece atenção, escuta, técnica, ciência e respeito. Chega de tratar a vagina como tabu, piada ou segredo, está na hora de desmistificar, reparar e reeducar.

 Como combater o preconceito na comunicação

O preconceito vaginal não é apenas histórico; ele se manifesta hoje em redes sociais, livros, jornais e campanhas educativas. Mas podemos enfrentá-lo:

  1. Normalizar a linguagem: Use os termos corretos — “vagina”, “vaginal”, “órgão genital feminino” — de forma natural em textos, posts e imagens educativas.
  2. Educação visual: Ilustre a anatomia feminina de forma científica, respeitosa e acessível.
  3. Campanhas de conscientização: Hashtags e posts que reforcem cuidado íntimo e respeito à saúde feminina.
  4. Evitar censura e eufemismos: Denuncie ou substitua por termos corretos, fortalecendo o discurso científico.
  5. Envolver profissionais: Médicos, terapeutas e educadores podem disseminar informação correta.
  6. Humanizar o tema: Conte histórias e experiências reais, mostrando que falar da vagina é cuidado, ciência e autonomia.

Conclusão: É hora de tirar a vagina do silêncio, da censura e do tabu, em textos, imagens, redes sociais e educação, usar o nome correto é um ato de ciência, respeito e autonomia. Quanto mais falamos, mais desmistificamos e mais protegemos a saúde feminina.

 

Estamos formando a primeira turma de Terapeutas do SHV – Sistema de Hidratação Vaginal Nacional, aqui no Sul Global.

Mas isso é muito maior que uma turma.

Essa primeira turma será a base do Primeiro Encontro Mundial da Filosofia do Cuidado Íntimo do Sul Global.

E é a partir daqui que vamos divulgar para o mundo uma nova forma de enxergar a saúde íntima: com ternura, ciência, autonomia e território.

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�� Blog  terapeuta do SHV  

Estou formando a primeira turma de Terapeutas SHV. Essa turma será a semente e a base organizadora do Primeiro Encontro Mundial da Filosofia do Cuidado Íntimo do Sul Global.

Seu corpo merece esse cuidado.

Rose de Méry
Cientista Ancestral | Terapeuta do SHV

Bem-vinda à era do cuidado. Bem-vinda ao SHV.




 

 

 

 


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